Chick Corea and Return to Forever – Light as a Feather (1972)

No início da década de 70, Chick Corea já era conhecido por ter participado de In a Silent Way e do exército de vinte homens nas gravação de Bitches Brew, ambos de Miles Davis.

Após esse período, Corea montou Circle, banda  que, incrivelmente, lançou 6 dicos de música avant-garde  e free jazz entre 1970 e 1971. A sonoridade de Circle lembra muito a de bandas obscuras francesas ou japonesas e, apesar de ser  bom, o grupo não fez tanto sucesso, talvez pelo fato de que Chick Corea, e provavelmente os outros membros da banda, não se importava sobre a comunicação com a audiência, sequer pensava que deveria existir comunicação entre o artista e o público. Corea estava mais preocupado em subir no piano e dedilhar as cordas.

Mas ninguém sobrevive sem audiência, bla bla e então Chick Corea chamou Stanley Clarke para o baixo ,  Joe Farrell para a seção de sopros, e Airto Moreira, o mesmo baterista do Sambrasa Trio e do Sambalanço Trio. Airto, que também já havia tocado com Miles Davis e Hermeto Pascoal, trouxe consigo sua esposa, Flora Purim.

Estava formada, assim, uma das mais importantes bandas de fusion da década de setenta, reveladora de vários talentos, inclusive Al Di Meola, que entraria para a banda mais tarde.

Certas partes de algumas músicas são prestabelecidas, com riffs e repetições, e noutras os músicos experimentam a liberdade de improviso, como se estivessem em 500 milhas de altura.

Com exceção à música Light as a Feather, composta por Stanley e com letras de Flora Purim, todas as outras músicas foram compostas por Corea, com letras de Neville Potter, seu amigo. Em Light as a Feather, Farell mostra sua versatilidade ao tocar flauta na introdução e, na hora de solar, saca o saxofone.

Suave e calma, a voz de Purim é peça chave para a sonoridade do álbum. Sua participação em Light as a Feather, além de percussionista, é dar o clima suave e etéreo, seja em partes cantadas em inglês durante refrões ou intros ou em vocalizações tipicamente brasileiras, como em You’re Everything. Talvez seja essa abrasileirada no vocal o motivo pelo qual Corea afirmou que, dentre o repertório de músicas com vocal do Return to Forever, You’re Everything é sua preferida.

Airto Moreira coloca mais agressividade e peso na condução da bossa que já fazia nos idos da década de 60, dando a sonoridade dançante que também caracteriza Light as a Feather. Tanto é que alguns consideram este álbum como Latin Jazz. Junto a Clarke e seu contrabaixo, Airto dá a base para os outros os solistas voarem leve como penas. Mas Clarke também sola, e quando o faz é agressivo. Corea interfere com classe, e Clarke então corresponde, como num jogo, um passando a bola para o outro. Engraçado é que Airto não precisou de solos em nenhuma música para mostrar sua excelência.

Corea usa simplesmente o famoso e excelente piano elétrico Fender Rhodes – timbre magnífico. Sola em quase todas as músicas: solos ágeis, com groove, explosivos. Corea tem uma música praticamente só sua, Children’s Song (uma das muitas Childre’n’s Song de seu repertório, das quais algumas já foram reinterpretadas por orquestras de câmara), meio minimalista, curtinha, em que toca acompanhado pela percussão que faz “tic-tac” parecido com o de um relógio.

E o espírito brasileiro também foi incorporado por suas mãos, principalmente enquanto dá a base com acordes para os solos enfurecidos de flauta ou de saxofone de Farell. Aliás, os solos de saxofone e flauta são a pimenta necessária para diminuir suavidade em excesso que poderia se formar. Dá o equilibrio da perfeição.

Entre todas das faixas do álbum, Spain foi, sem dúvida a melhor escolha para fazer o encerramento.  A intro, somente ao piano elétrico, é um trecho de Concierto de Aranjuez,de Joaquin Rodrigo. A partir daí, os outros membros da banda chegam, a flauta e o piano entoam o riff da música – e que riff, é de se assobiar junto – e então as vocalizações de Flora para depois a  sessão de palmas – que dá um clima festeiro, meio de “saidera” – enquanto o piano e a flauta dobram a melodia; essa parte se repetirá algumas vezes durante a música, nos intervalos dos solos de piano, flauta e contrabaixo. Conheci Spain nesta coletânea de Fusion.

Não é à toa que Spain é um standard do jazz moderno, sendo coverizada por vários artistas e aparecendo em futuros álbuns de Corea, e até ganhando Grammy para Best Instrumental Arrangement e para Best Instrumental Jazz Performance by a Group.

Após a gravação de Light as a Feather, deixaram a banda Flora Purim e Airto Moreira para nunca mais voltar e Joe Farell, que só voltaria em 78. Os únicos membros constantes da banda seriam Chick Corea e Stanley Clarke.

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5 opiniões sobre “Chick Corea and Return to Forever – Light as a Feather (1972)”

  1. Nossa, resenha muito bem feita de Chick Corea. Apesar de ainda preferir Hiromi Uehara, você me fez conhecer outros grandes nomes do jazz e jazz fusion como Chick, parabéns! Espero novas resenhas de outros albuns do Chick.

    (Chick Corea fez um dueto com a Hiromi e Stanley Clarke fez um Trio com a Hiromi também, recomendo esses albuns também, pq não uma resenha…)

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