Contra os reacionários musicais.

Quando o assunto é música eletrônica, o que vem na cabeça da maioria das pessoas é aquela música de balada: simples, repetitiva, superficial, putz-putz, que ninguém leva muito a sério e só ouve para dançar. Essa opinião é geralmente construída a partir de algum DJ Random que ouvimos em rádio, TV ou festas. Quem pensa assim não está completamente errado, porque música eletrônica ruim é quase tão chata quanto, sei lá, Casuarina.

Muitos não sabem, porém, que além do mainstream há várias bandas que fazem música eletrônica de uma forma mais compromissada, em que a qualidade corre ao lado da criatividade, criando músicas tão (ou até mais) grandiosas quanto as grandes obras do jazz, do rock ou da música erudita.

Não é nenhum exagero da minha parte dizer isso, visto que não é só porque um músico usa samplers, teclados, sequenciadores e às vezes um laptop Mac que a música dele vai automaticamente não ter qualidade.

Um caso curioso que aconteceu comigo foi o seguinte: eu mostrei ao Danny Boy uma música do Boards of Canada (Happy Cicling) e de primeira ele disse “Nossa! O baterista manja, hein?” e aí eu falei “Sim, mas o melhor de tudo é que a bateria é eletrônica!” Subitamente, o rapaz me olha com cara de desdém e perde o interesse na música.

Ora porra, já estamos no século XXI, terceira revolução industrial, é praticamente uma obrigação as bandas se modernizarem e fazerem música com as novidades tecnológicas disponíveis e buscarem sonoridades inovadoras.

A arte deve capturar o que está à sua volta. Caso contrário, a música estaciona no tempo. E música estacionada no tempo é tipo Casuarina, Chico Buarque, e outros, principalmente bandas brasileiras, que acham que a obrigação de qualquer brasileiro que for fazer música é seguir os moldes da bossa nova, samba, choro e etc. Enfim, Boards of Canada não é nem brasileira e nem parada no tempo.

Boards of Canada é formada pelos dois irmãos escoceses Michael e Marcus Eoin Sandinson. O nome do grupo é relacionado à produtora de filmes oficiais do Canadá, a National Film Board of Canada (NFB), cujos documentários marcaram a infância dos dois moleques. Viviam em família de músicos e tiverem interesse musical despertado já durante a infância, enquanto brincavam com os instrumentos que ficavam pela casa.

Caras, uma banda que usa fotos lo-fi tão fodas assim,só por isso, já vale atenção.

A sua música é uma mistura de sensações – descrevê-la já é por si só um risco de cair na pieguice. Misturam batidas orgânicas e dançantes ( sem apelar para refrões como “Daaance Everybody/Daaaance Everybody” e outras porquices) com melodias de sintetizadores que carregam consigo uma gama de imagens e significados, que hora nos remetem à infância, hora a um sensualismo oculto, hora a imagens contemplativas à natureza, a pores do sol, e é sempre carregada de nostalgia. Para dançar, para relaxar, para dançar relaxando, ou para relaxar dançando a beleza da música do Boards of Canada é singular e estimulante.

Graças à sua técnica (sim, há técnica em música eletrônica,seu puto), o duo consegue usar como samplers várias passagens de músicas e filmes, dando novos significados e criando situações interessantes, como em Aquarius.

yeah that’s right + *giggle*

E em Telphasick Workshop os caras conseguem mixar vozes de forma tão detalhada que incomporam-nas à percussão da música.

A banda foi, junto com a gravadora Warp e diversos outros artistas, como Aphex Twin e Squarepusher, uma das pioneiras a fazer música eletrônica como a conhecemos hoje em dia(claro, tem música eletrônica desde 1920, sem esquecer também de Tangerine Dream e outras do krautrock), e por isso sua influência é gigantesca, antingindo desde aquelas bandas totalmente eletrônicas( penso que a maioria,senão todas, das bandas eletrônicas são influenciadas por BoC, porque,como já disse, BoC foi pioneira), até bandas mais rock (tipo Radiohead).

É graças ao desprendimento de não fazer algo restrito e comercial ( “Daaaaance Everybooody/Daaaance Everybooody”) que os dois irmãos conseguiram alcançar a magnitude e diversidade de seus sons. Engraçado é que mesmo com pouquíssimos clipes oficial (os fãs por si só fizeram vários), e pouquíssimos shows a banda ganhou fama e tornou-se um dos símbolos da música eletrônica mundial. A própria NFB chegou a usar suas músicas para trilha sonora de seus filmes.

É legal também como as fotos da banda descrevem o sentimento que tenho ao ouvir as músicas.

É legal também como as fotos da banda descrevem o sentimento que tenho ao ouvir as músicas.

Music Has The Right to Children

Uma consideração sobre “Contra os reacionários musicais.”

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