Música brasileira

Modernizar o passado
É uma evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui?
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos

Chico Science & Nação Zumbi

“[…]o brasileiro, ele não tem a tendência de buscar esse passado cultural com a ideia de buscar alguma coisa no futuro. O brasileiro não enxerga o futuro propriamente dito a partir dessa cultura.Tanto que a referência disso é que aqui no Brasil a gente não tem obras de ficção científica,por exemplo.Ninguém olha para o futuro. As pessoas só olham para o passado, ou do presente para o passado[…]”

Musicalmente, o que é ser brasileiro? O que é música brasileira? É ter aquele espírito brejeiro? É recitar serenata ao pé da janela da amada? É compor letra exaltando o samba? É a trilha sonora para um passeio no calçadão de Copacabana, vendo o pôr do Sol com a namorada?

Quais as alternativas de brasilidade musical atualmente? O que vejo divulgado na mídia é que para ser genuinamente verde e amarelo o artista contemporâneo deve retomar os valores de décadas passadas e não ir além da bossa nova, do chorinho, ou do samba, num anacronismo que deixa a cena musical brasileira estéril.

Anacronismo porque, ao meu ver, a arte deve captar o que está à sua volta. O que vejo, porém, é Maria Rita imitando a mãe dela, Casuarina tocando standard de décadas passadas, Chico e Caetano velhos saudosistas, vivendo e compondo no passado. E estéril porque,como disse Lobão, cuja música eu não gosto, mas com cujas opiniões concordo bastante:

“Sabe como eu penso assim… Em 77 saiu o Bye Bye Brasil, e eu fui ver o Bye Bye Brasil. Antes tinha um curta onde aparecia o Chico Buarque muito nostálgico, muito melancólico, dizendo assim: ‘Eu sinto falta na juventude de hoje, sabe, de uma doçura, de um brejeiro, das serestas, das serenatas… Cadê o povo? Cadê os jovens? Cadê os rapazes fazendo serenata pras meninas no sobrado? ‘. Aí eu pensei: ‘Porra! Mas a minha namorada mora no 16º andar! Como é que eu vou MEU AMOOOOOOR! Vai tomar no cu, né rapá! Isso é uma letra morta!”

Se Casuarina, Elis Regina, Diogo Nogueira ou qualquer outro artista que seja influenciado por Samba, Bossa Nova ou outro gênero da MPB realmente ama tanto assim “os eternos”, por que eles então não se inspiram com o mesmo espírito revolucionário de seus mestres e criam algo verdadeiramente novo?Afinal, se Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Cartola e etc são lembrados até hoje, é porque no passado romperam com o padrão e propuseram novos caminhos para a música, e não apenas ficaram fazendo cover de seus antepassados.

“[…]O brasileiro, ele pra se achar brasileiro, ele tem que pegar o vizinho, geralmente o mais antigo. ‘Esse cara é brasileiro?Então eu vou copiar ele’ […]”

Há quem diga, entretanto, que o papel destes artistas é de “restaurar” tradições, de modo a tornar acessível aos mais novos o legado musical dos “eternos”. No perfil do Last.FM do Casuarina, lê-se o seguinte:

“[…] o grupo faz parte de uma geração que, carente dos gêneros mais tradicionais e representativos da música popular brasileira, começou a ouvir, pesquisar e consumir os sambas que um dia construíram a identidade musical brasileira, mas que há muito tempo estavam desprestigiados.”

Porra!Que coisa reacionária. Se a proposta da banda é restaurar tradições, é porque atualmente alguma coisa não está indo de acordo com o modo que era no passado, e se não está indo de acordo é porque nossa sociedade vive um contexto diferente, porque os anos passam e porque as coisas mudam! Restaurar tradições é querer voltar no tempo.

Para compor música brasileira atualmente há duas opções: transformar o presente em uma manifestação estéril e anacrônica de um passado glorioso ou buscar novos caminhos com perspectiva direcionada ao futuro. Qual o mais fácil, mais sem graça, mais inútil, mais medíocre e também o mais adotado pela grande massa de músicos brasileiros? Sim, a primeira opção.

E nessa questão, o purismo é soberano, como se só fossem influenciados pelo Samba, Choro e etc aqueles que os emulassem de forma exata aos padrões já existentes. Quem me diz que (e agora eu começo a propor artistas brasileiros inovadores) SouKast não tem influências de Samba?Digo mais, quem diz que Soukast não tem influências de ritmos nordestinos, de Bossa Nova, de Choro, da música indígena? Tudo isso está presente e misturado na música da dupla, que ao mesclar os já citados estilos com música eletrônica, rock e experimentações percussivas, desenvolve uma inédita abordagem da música brasileira.

“O nome do projeto é SouKast. Eu gosto de chamar de ‘música experimental percussiva brasileira’ ou música contemporânea.”

Quem diz que Maria Rita é mais brasileira que Satanique Samba Trio, uma banda que mescla samba, jazz, bossa nova e rock, criando experimentações atonais de vanguarda, intrincadas e, por que não?, revolucionárias.

“Na verdade o que eu busco é incorporar elementos dessas influências que são banidos do Samba, da MPB em geral. Por exemplo: dissonância de quinta menor; estrutura rebuscada; distorção; ritmos compostos. São na verdade aspectos da música universal que eu to trazendo pro samba para, digamos assim, estragá-lo.”

Grandes são esses artistas que não se rendem à ditadura da brasilidade fogem do lugar comum. Vivamos nossa época, minha gente!

Uma opinião sobre “Música brasileira”

  1. e porque MPB? porque MPB??? Vaneirão, Chamamé e Vaneira não são brasileiros? ser brasileiro é tão importante assim também? eu odeio essa sudestificação, essa imposição cultural, eu não quero essa cultura semi-morta de boteco, eu não quero sambar, eu quero é o galpão, o cheiro de mato, sentir o chão da estância debaixo do meu pé, passado? presente? futuro? eu quero é tocar meu acordeão, que se danem os Beatles, que se dane Chico Buarque.
    Música tem carteira de identidade? Música tem naturalidade? desculpa mas aqueles acordes nonavados de bossa nova pouco falam para mim, de nada me lembram meus pampas, agora dizem que aquilo é “meu”? esse pessoal adora amarrar os outros, enfiando coisas pela goela de gente que nada tem á ver com a história, eu não quero música de apartamente, de gente que nunca entrou no carro com os pés fedendo bosta de cavalo, eu não quero aquela praia de classe média com músicos tocando cool jazz com violão e se acahando vanguarda, se for assim, eu prefiro tocar Schoemberg no meu acordeão flambando um xote dodecafonico 3/4.
    Dane-se o Carnaval também.

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