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Eu não amo ninguém

No que me pese o gosto de todos as paixões, nenhum será tão doce quanto o próprio sabor desta música. Está aí a eficácia de certa produção de som levada a cabo por certos veículos astrais humanos com sensibilidade apurada: descongestionar a energia acumulada nos centros de força e da psique – pois mesmo as sensações ditas afetuosas ou benevolentes constituem excesso de sentimentalismo tolo e ingênuo quando situadas no picadeiro de conspirações impessoais da ninfomania pós-moderna.

Viver em busca de um amor é rasgar lentamente com um punhal a carne do meu próprio coração.

Amo esta guitarra distorcida, amo a harmonia vocal sussurrante, amo a estética das sensações, amo (…) e viveria em sonho toda uma vida com a cor púrpura destas ondas mecânicas que amo,

mas não amo a pessoa alguma, além daqueles que devo amar pelo próprio dever da gratidão cosmogônica.

Loveless.

Estreando: o nome de vocês. rsrsrsr

Fala Eustáquio! Deep Purple com Coverdale no vocal. Uma breguice danada! Adoro! E o Tommy Bolin aliviando na guitarra! Que play sensacional! Hard rock bemencaixado, com um groove de quebrar as cadeiras, som que meu pai, jovem, ouviria se tivesse um cabelão, e não houvesse nascido no Nordeste na época em que não existia internet. RISOS, Ana!

Para o marcio silva de almeida, de uma época em que o rock pesadão trazia essa carga de blues e de soul. Excetuando-se, claro, o PODEROSO Sabbath, que já havia se exorcizado dessas influências. Mas também o King Crimson, que explorou outras frequências e outras dimensões do som pesado. Sir Lord Baltimore… mas daí já é deixar de citar clássicos e apelar para os cults. Vocês estão ligados! Cada qual conhece pelo menos um desses! Riffs-e-raffs que nós gostamos. 

Come Taste the Band foi lançado em 1975, um ano antes de a história do heavy metal ser desfibrilada pela potência vocal de Rob Halford, e a guitarra-dupla maníaca dos Judas Priest em Victim of Changes.  Anos depois, Venom, Metallica, Slayer… estou me esquecendo de algum ponto nesta linha??? Me ajudem! Jimmy Hendrix há anos fritando já antes!

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Tommy Bolin. Belo.

Resenha íntima: Mer de Noms

O álbum Mer de Noms é de uma sensibilidade ímpar. Organismo vivo, comunica-se comigo numa linguagem emotiva e sensual. A poesia íntima de MAYNARD J. Keenan fecha feriadas antigas com a delicadeza de uma energia feminina.

Run, desire, run, sexual being
Run him like a blade to and through the heart
No conscience, one motive
To cater to the hollow
Screaming

Uma safira sonora com sabor final de anos 90, tempero de um grunge paliativo mas também de um metal alternativo delicado. Os refrões e riffs fluem e são agradavelmente combinados, numa montãna-rusa sonora esparsa e viajante. Maynard, simplesmente, canta. Voz doce e ofendida, revoltada mas frágil. Com andamento vívido e melódico, a harmonia seduz a confissões e amarguras. Viciante.

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Drunk on ego
Truly thought I could make it right
If I kissed you one more time to
Help you face the nightmare
But you’re far too poisoned for me
Such a fool to think that I can wake you from your slumber
That I could actually heal you..

PAZ Lechantin está jovial e branda, verdejante de perfumes e (…). A intro de Orestes é realmente de se canonizar no compêndio daquelas basslines misteriosas e melancólicas.

A produção do álbum em estúdio é de se arrepiar, pois as tracks soam tão limpas e cristalinas que é impossível não tirar o chapéu para o trabalho de mixagem de Billy Howerdel. Efeitos de overdub e arranjos orquestrais de muito bom gosto, retirados da cartola de um mago de estúdio. Mas ao vivo a banda também esbanja qualidade, com performances intensas.

Maynard maravilhoso usando longos cabelos de peruca e com unhas pintadas. Uma inspiração.

Difficult not to feel a little bit
disappointed, and passed over
When I’ve looked right through,
see you naked but oblivious.

And you don’t see me…  

Here I am expecting just a little bit too much from the wounded
But I see, see through it all, see through, see you.

Um álbum que fala a mim como um cúmplice falaria. O Leonardo, agora menos ingênuo, e com o coração já cicatrizado. Um Leonardo sensual, emotivo e sentimental.

Sobre loops eletrônicos, mantras religiosos e estados alterados de consciência.

A ideia por trás de um simples gif é que ele seja repetível infinitésimas vezes, e que isso seja suficiente para uma apreciação hipnótica que baste por si só. Para que cada detalhe dos pixels e também da ideia ou conceito possam ser contemplados até à catarse, é necessário atenção.

Este é o fundamento também da música erudita minimal (Erik Satie, Ärvo Part, Steve Reich), da música eletrônica digital que se utiliza de loops para acontecer (techno em sistemas computadorizados de inteligência artificial programada – Juan Atkins em Detroit e Richard D. James na Irlanda); ou analógica (hip-hop no MPC), mas também dos mantras religiosos que possibilitam a aproximação ao divino através da repetição. Entre estes compositores-produtores, há uma figura excedente.

Rod Modell frequentou anos a fio sessões musicais em que o maha-mantra sagrado é cantado diariamente, e cantado à exaustão, pelos diligentes discípulos do Senhor Krishna. Um profeta sagrado cujo nascimento é datado em 33 séculos a.C. Uma das almas perfeitas que assim como Jesus de Nazaré passou pelo plano tridimensional da matéria para nos deixar recados. Entre estes, Bhagavad Gita e a Bíblia.

Entre brasileiros, o índio que cotidianamente traz Deus ao chão da aldeia através do canto do pajé. Invasão de terras demarcadas e massacre de uma Consciência autóctone. No mundo, intolerância religiosa mas também falta de fé; espiritualidade: igual a nada vezes nada, isto é, 0 à esquerda.

Mas para o discípulo religioso não é necessário nenhum loop já não-contido no Livro ancestral dos cantos, e no inalterável ritmo das contas do rosário a voz humana combina Tua consciência com a de Deus. Vá e veja.

Mas e quem não foi lá, ou já foi mas não pode lá viver por mais que alguns anos? A vida profana se impõe, e é capital se’nvolver na Grande Sociedade. Muitos prazeres, que eu gosto. Quem não pode se sacode. Aí de mim! Para nós buscadores, mas também apreciadores do som profundo, Rod Modell fornece o mais sofisticado design sonoro que há. Techno silente, frutífero do luxo meditativo, estabelecido na tradição do dub para as massas.

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Aleluia!

 

Death Grips – ???????

GLASS

Sempre que acesso o site do Death Grips eu fico surpreso com a quantidade de lixo, leia-se: criatividade que lá vejo, isto é, me instiga a capacidade que estes jovens sombrios têm para produzir arte a partir de um um caldo cultural diversificado – da contracultura sessentista ao techno, passando pelo rap e música punk, chegando até a beirar a nova onda da música vapor para internet, tudo calcado num poço profundo de bad trips aberto nos escombros morais do século XXI – grande vazio existencial, comportamento auto-destrutivo e muita droga, sem deixar de exaltar um gosto estético bem suspeito e verdadeiramente atormentado.

O glorioso metal

Num universo quântico em que a consciência produz matéria – não o contrário – e dada a periculosidade da desesperança dos seres humanos niilistas ou sem fé, essa banda sueca de power metal usou-se de um portal transdimensional e invocou seu guitarrista, chamado Transcendental Protagonist, cuja responsabilidade é “a poesia da iluminação espiritual através da guitarra”, para agir na purificação dos corações e no despertar das mentes das nações para um Terceiro Milênio vindouro. Quer mais? É fantástico.

Tá aí o porquê de eu amar tanto o glorioso metal.

álbum avulso da madrugada

Quando fico existencial venho e posto mais um álbum. assim parece que os riffs me impedem de pensar. e você?????você está lendo isso agora? quem é você? acessa sempre essa plataforma de comunicação? o mundo é apático ou eu não sei me mesmo me comunicar?

MELVINS

ultimamente tenho ouvido muita música pesada. de death grips, a slayer, a venom. e você? você é obsessivo quanto a cds, musicas e lançamentos também? se achou esse meu blog aqui então provavelmente também deve ser pelo menos um pouco. veio do last fm? veio do google buscar apenas um link de download? DON’T YOU SPEAK PORTUGUESE?

na internet as coisas são como são e eu não sei na verdade nem mais o que é. nesse sentido a nova música do death grips INANINMATE SENSATION explica bem as coisas. mas, porra, por que vc se importaria com death grips? a gente é brasileiro, eu de são paulo, death grips é californiano. eles fazem show pelos estados unidos, eles moram ao lado do VALE DO SILÍCIO e eu moro AO LADO DE GUARULHOS. por que eu deveria me identificar com eles?

OUÇO POUCA MÚSICA BRASILEIRA. não me identifico com ela, e não sei nem se me identifico com música nenhuma. não consigo nem entender o que ESSA PORRADA SONORA DO MELVINS tá falando.

PORRADA INCESSANTE. e se eu escrevo sobre um álbum por mais tempo do que ele tocou DO COMEÇO até o final… eu paro imediatamente.

Resenha: Álbum avulso do dia: ‘EYEHATEGOD’ – ‘TAKE AS NEEDED FOR PAIN’

O que se sabe desse álbum é que Mike Williams durante a gravação havia sido largado pela namorada, e já que estava sem lugar para ficar passou a morar num quarto abandonado acima de um strip club. Mike era conhecido por sofrer de asma, e viver últimas consequências da vida: além de ter perdido pai e mãe ainda quando criança, saiu de casa aos 15 de idade, e por anos viveu como usuário habitual de heroína. O álbum foi lançado em Dezembro de 1993 em New Orleans. EHGTANFPFront1As letras ficam praticamente incompreensíveis graças aos berros enfurecidos e rancorosos de Mike Williams. Os riffs de guitarra de Jimmy Bower são absolutamente pesados, incessantes, e poluídos. Muito feedback, distorção e ruído no decorrer de todo o álbum. A bateria soa bem abafada. Se esse álbum tivesse cheiro, ele ia feder até dar náusea.

O primeiro pico acontece com ‘Blank’, de 7min10, a faixa mais longa do CD, em que os grooves gordurosos que vão dominar os 50 minutos do play são introduzidos. A imundície sugerida pela setlist é rastejantemente preenchida. Em alguns trechos a banda exibe influências de hardcore punk e o ritmo dessa marcha putrefata é abruptamente acelerado.

Aos 19 minutos ‘Disturbance’ literalmente perturba ao interromper o álbum com um longo drone de 7 minutos, no qual uma voz que faz lembrar o áudio de alguma aula de medicina cirúrgica fala sobre “pacientes”, “decaptação”, “rins” e “tubos”. A quantidade de reverb nas guitarras e no baixo é tão cheia de camadas e densa que provoca uma espécie de sucção em areia movediça sonora.

1. “Blank” 7:10
2. “Sisterfucker (Part I)” 2:13
3. “Shoplift” 3:17
4. “White Nigger” 3:56
5. “30$ Bag” 2:51
6. “Disturbance” 7:01
7. “Take as Needed for Pain” 6:09
8. “Sisterfucker (Part II)” 2:39
9. “Crimes Against Skin” 6:49
10. “Kill Your Boss” 4:16
11. “Who Gave Her the Roses” 2:00
12. “Laugh It Off” 1:33
Total:
49:54

Mike na faixa homônima ao álbum segue com letras que talvez demonstrem o ódio transbordante que nutre por si mesmo:

Breast Fed From A Dog
Since The Day I Was Born
Severe Allergic Infektion
Lousy Lust Pimp

Narcotic Induced Hypo-Thermia

As faixas mais curtas do álbum – ‘Shoplift’, ‘White Nigger’, ’30$ Bag’, ‘Sisterfucker I e II – são praticamente indistinguíveis. O álbum ao todo soa como uma massa lodosa e homogênea. ‘Crimes Against Skin’ é no entanto a faixa com os riffs mais distinguíveis, na minha opinião. A impressão que fica é a de que o álbum flui muito bem.

O breakdown de ‘Who Gave Ger the Roses’ cessa abruptamente o álbum, que tem seu fim na bizarra ‘Laugh it Off’, uma colagem de som curta e perturbante. Ouvi o álbum pela primeira vez hoje, e agora, de madrugada, já o devo estar reproduzindo pela 7ª ou 8ª vez.

Para quem gosta de: Cromagnon, Black Sabbath, Boris e Sleep

É isso aí. O som é podreira mas a energia que quero passar é positiva: compartilhando o que eu gosto com pessoas que também vão gostar. Quem aí curte um sludge metal? Até a próxima!

Resenha: Álbum Avulso do Dia – Red Hot Chilli Peppers – Blood Sugar Sex Magic (1991)

1. The Power of Equality 4:03
2. If You Have to Ask 3:37
3. Breaking the Girl 4:55
4. “Funky Monks” 5:23
5. Suck My Kiss 3:37
6. “I Could Have Lied” 4:04
7. “Mellowship Slinky in B Major” 4:00
8. “The Righteous and the Wicked” 4:08
9. “Give It Away” 4:43
10. Blood Sugar Sex Magik 4:32
11. Under the Bridge 4:24
12. “Naked in the Rain” 4:26
13. “Apache Rose Peacock” 4:43
14. “The Greeting Song” 3:14
15. My Lovely Man 4:39
16. “Sir Psycho Sexy” 8:17
17. They’re Red Hot 1:11
Duração total: 73:55

Palavras não podem ser escritas para descrever a preciosidade desse álbum. Com um dos line-up mais moleques do rock da década de 90, o RED HOT CHILLI PEPPERS veio em 1991 com sua pérola de funk-rock e sexo “Blood Sugar Sex Magik”

Desde o primeiro groove de “Suck My kiss” até as letras lascivas de “Breaking The Girl”, passando pela cadência de “Funky Monks”, no álbum “Blood Sugar Sex Magik” só constam clássicos.

E, de fato, não vou perder meu tempo (e nem o de vocês) descrevendo músicas – que existem para serem ouvidas. Vou compartilhar algumas das curiosidades sobre esse álbum, que ilustram porque ele é tão bom e dão uma ideia geral sobre o momento da banda.

Curiosidades sobre Blood Sugar Sex Magik:

O guitarrista Hillel Slovak morrera em 1988 por overdose de heroína.

Em vida Hillel mantinha relações de amizade com John Frusciante, um grande fã do RHCP, que comparecia em vários shows e tinha muitas, senão todas, as passagens de guitarra da banda decoradas. DeWayne “Blackbyrd” McKnight foi contratado para ser guitarrista, mas depois de apenas alguns meses a banda percebeu que Frusciante era a única escolha certa. Só de ler o nome do guitarrista, “Blackbyrd” McKnight eu sinto que ele não tinha mesmo nada a ver com a vibe do Red Hot, concordam?

Em 1992 a banda estava bem de vida. Tinham acabado de firmar contrato com a a Warner Bros e tinham a suas mãos tudo o que precisassem, contato que gravassem algo de sucesso e entregassem dentro do prazo.

A Warner ofereceu o produtor Rick Rubin, em quem os membros da banda confiavam mais que o produtor anterior. Rick Rubin era o cara que já havia produzido pelo menos 4 discos do SLAYER nos anos anteriores, inclusive o clássico Reign in Blood, e que ainda ia produzir durante a década de 90 o primeirão do SYSTEM OF A DOWN. Rubin sugeriu que a banda gravasse o álbum na mansão em que viveu o ilusionista Harry Houdini.

O álbum foi gravado nos cômodos da casa, da forma mais natural possível, para depois serem mixados na mesa de som. Os músicos ficaram na mansão gravando por mais de 30 dias. Os músicos – aqui profissionais – não precisavam nem ir no mercado comprar comida, para isso tinham a ajuda de um roadie amigo.

As gravações eram intercaladas com sessões de fotografia, chapações com Rubin ao som Black Sabbath e comentários sobre as mais mais impressionantes performances das atrizes pornô estampadas nas revistas que chegavam até as mãos da banda.

Blood Sugar Sex Magik foi o segundo álbum a contar com John Frusciante na guitarra. O sucesso do álbum foi tamanho que desagradou John Frusciante, fã oldschool da banda, que desbandou em 1992. O próximo trabalho solo de Frusciante seria Niandra LaDes and Usually Just a T-Shirt, álbum que seguiu seu vício pesada por heroína, e demonstra um dos momentos mais maníaco-depressivo e criativos da carreira do guitarrista.

Frusciante disse à revista Raw Magazine: Hillel me perguntou “você ainda gostaria do Red Hot se ele ficasse tão popular a ponto de tocar no Forum (nota:estádio de Los Angeles onde só tocaram os grandes, como Queen e Deep Purple). Eu disse “Não. Isso iria arruinar a coisa toda. Isso que bom sobre a banda, o público não se sente nem um pouco diferente da banda”.

O que Frusciante quis dizer tem a ver com a expansão da audiência das bandas de sucesso, que em primeiro momento tocam para pessoas conhecidas de sua comunidade, amigos e conhecidos que frequentam alguma casa de show, etc e depois são introduzidos a novas audiências espacial e espiritualmente distantes.

É o que aconteceu com muitas das bandas de rock que brotaram na Haight-Ashbury e em São Francisco no chamado Verão do Amor hippie e se confirma no extremo de o The Quicksilver Messenger Service não se apresentar fora da Califórnia nem uma vez até 1969. Uma clara tentativa de preservar a identidade do grupo e manter o sentimento de união entre público e banda, em que os dois são um só.

Depois desse álbum, o Red Hot Chilli Peppers passou a lançar compactos com músicas raras e compilações, já que estavam sem John Frusciante. Foi só em 1995 que voltaram a gravar, chamando Dave Navarro para a guitarra. E nesse meio tempo Frusciante já havia lançado 2 álbuns solo… Mas isso tudo é papo para a próxima conversa. Até a próxima!

Nota 8/10 – Rock para curtir com a galera, ou, quem sabe, dar uma trepada.

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O álbum foi lançado no mesmo ano que Nevermind, do Nirvana.

–sshhhh–