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Sobre guitarristas de rock – parte 1?

Há algum tempo já venho preparando este texto no qual comento o emprego da guitarra elétrica na música popular norte americana – especificamente no rock. Escrevi mas não cheguei aonde queria chegar, pois são muitos mais os guitarristas que podem ser adicionados. Uma lista inesgotável, certamente, faz do texto sempre incompleto. Mas o excerto pareceu-me estar interessante, então aqui vai. Espero que vocês, resilientes e devotos acessantes deste blog-irado, gostem.

A guitarra elétrica foi popularizada pelo blues e jazz estadunidenses. Por exemplo Muddy Waters e Wes Montgomery. Mas é um problema decidir o  o que é melhor de alguma coisa. Assim, o que estou considerando ao dizer guitarrista de rock ? Estou falando daquela personalidade abalada pelo sucesso e fama, que vive sob holofotes. Originários não do caldo de cultura popular norte americano (como o jazz e blues tradicional), mas sim daqueles grupos de músicos influenciados, a princípio, pelos beatniks e pela folk music. Os beatniks eram um movimento literário e artístico de vanguarda. A country music é gênero com o qual se identificavam as camadas conservadoras da sociedade americana, favorecentes do extinto sistema de castas construído no Sul. A folk music era a música do povo, a música dos direitos humanos, dos negros, música cantada em protestos de estudantes.William S. Burroughs

William S. Burroughs, o beat drogado e viado que se veste que nem um patrão.

O beatnik ideal era um jovem norte americano, bem educado e culto, mas também mimado e bancado pelos pais. Seu estilo era hipster, que na acepção beatnik do termo corresponde a cool, uma atitude política de desvio do status quo, a favor da exploração de estados de consciência através das drogas e da meditação, e também exploração das condutas sexuais.

 Foi Bob Dylan, na Greenwich Village, bairro residencial de Nova Iórque, que fundiu a tradição literária vanguardista beatnik ao caldo de cultura tradicional da sociedade Norte Americana. No festival Newport de música folk, em que apresentou àquela audiência a guitarra elétrica, Bob Dylan foi vaiado pois a plateia tradicional considerou-o como violador da integridade de um estilo imaculado.

Bod Dylan no entanto não era um virtuoso na guitarra, seu talento era devido, isso sim, à poesia de protesto genuína que compunha, pela primeira vez estando em voga e tendo repercussão na grande mídia através da música. União da poesia à música. Outros poetas tornados em músicos de rock, que dão entrevistas, fazem shows e lançam álbuns são Leonard Cohen e Lou Reed.

Assim, o rock pode conter protesto social. Foi necessariamente subversivo, e flertou com a experimentação. Uma das grandes bandas do rock psicodélico de primeira leva foram os Grateful Dead, que ao somarem a música tradicional norte americana à improvisação do jazz ouvido pelos beatniks envolveu a música que criara num fluxo de consciência, em verdadeiras jams de folk psicodélico.

As performances de Bob Dylan aliavam espetáculo à política, e aproximavam a arte de uma nova sociedade.

A guitarra elétrica esteve presente desde o princípio do rock. É esse gênero musical que trouxe à história os grandes guitarristas. Digo guitarrista e não bluesman. Mesmo alguns dos exímios guitarristas do jazz, como John McLaughlin, adotaram a estética da fusão de jazz com rock. O jazz fusion foi protagonizado por Miles Davis, do lado do jazz, aproximando-o ao funk, e à experimentação elétrica do rock; e Frank Zappa, trazendo o rock para próximo das escalas, timbres, formato de música e improvisação do jazz.

A questão de uma carreira em que possa se manifestar o conjunto da obra deve ser considerada nesta nossa qualificação de guitarristas. O caso de Tommy Bolin é emblemático. Jovem nascido no meio oeste Norte Americano e que preferiu abandonar a escola a ter que cortar o cabelo. Foi para a cidade grande aos 15 anos para tocar guitarra. Com 18 fechou contrato com a banda Zephyr. Seu estilo era indomável, e Bolin transpirava energia. Ficando claro que o ímpeto da banda eram seus riffs, e que a banda o limitava, em 1971 abandonou a banda para para seguir sua ambição. Nesta época participou das sessões de heavy-metal-jazz-fusion (qualquer extrapolação não é exagero), da banda Energy, em que a liberdade musical era a maior que Bolin jamais experimentaria.

Tommy Bolin – “If you’re not having fun it’s not worth doing.”
Infelizmente os moleques do Energy se empolgaram demais com os elogios do manager que queria fechar contrato, e começaram a encher a cara antes de tocar as jams agendadas para os dias seguintes. Foi o suficiente para a gravadora perder a confiança neles e mandar um pé na bunda de cada um. Conclusão: as gravações do Energy só foram lançadas em 1999, muito depois da morte precoce de Bolin.

As performances de Tommy Bolin entretanto estavam sendo notadas por grandes nomes. Em 1973 gravou com Billy Cobham, baterista do Mahavishnu Orchestra, o fenomenal álbum Spectrum, O álbum soa como um concentrado de êxtase e frenesi. Bolin não atua como um session man qualquer e rouba a cena: quando a banda vem com a farinha ele já vem com o bolo inteiro. Entre 1973 e 74 tocou no James Gang, grupo comercial de funk rock, substituindo Joe Walsh. Este novo momento permitiu ao jovem Bolin de 23 anos o contato com uma audiência maior e também significou a oportunidade de finalmente conseguir alguma grana. Nos 2 álbuns do James Gang em que participou Bollin firmou-se como o principal compositor, junto com seu parceiro Jeff Cook.

Tommy Bolin – “I can’t do anything but play guitar.

Após o James Gang  o nosso menino-talento participa do Come Taste The Band, do Deep Purple. Com a saída de Ritchie BlackMore de uma das bandas de mais sucesso e influência do hard-rock, os beberrões do Deep Purple estavam à procura de um guitarrista com ânimo e potência para apoiar o grupo. Bolin de novo rouba a cena e leva a banda nas costas. A dupla Glenn Hughes e Coverdale nos vocais se reveza e a banda soa mais livre do que nunca. Infelizmente os fãs tradicionais da banda desgostaram do álbum, o que ocasionou o fim de banda em 1976. O peso de ser um substituto do Blackmore diante de uma audiência saudosista marcou Bolin. O peso de ser apenas um replacement ou side-man o assolava.

A ambição de Bolin entretanto não havia diminuído. Em 1975 estava lançando seu primeiro álbum solo Teaser, que mostra sua versatilidade como compositor, além de sua inventividade na guitarra. Promovendo este álbum, foi em turnê com sua promissora banda, composta por ex-membros de Vanilla Fudge, Rare Earth e Mahavishnu Orchestra. Internamente, entretanto, Bolin lidava com problemas emocionais e de relacionamentos. A fama repentina deste jovem ingênuo do interior deu a ele o rock’n’roll, suas drogas e toda aquela tristeza particular aos rockstars que praticam o easy living. Neste cenário em que o limite entre indulgência e excesso é tão tênue, Bolin foi encontrado morto com traços de heroína, cocaína e remédios no sangue.

O mesmo jovem talentoso que em sua juventude compôs “Someday Will Bring Our Love Home“, uma bela canção que fala de solidão, viagens e desencontros amorosos foi visitado em seu enterro pela “ex-namorada”, que trouxe com ela de Londres um anel e colocou no dedo do defunto. O anel era de Jimmy Hendrix e fora dado a Bolin por seu agente. O moleque achou de bom grado que a então namorada guardasse o anel com ela, porque ele sabia que provavelmente ia perdê-lo quando estivesse por aí tocando. Trágica histórica.

Carreira solo – “I replaced Walsh, I replaced Blackmore, now I just gotta be me.”

Moral da história de Bolin: a) o rock’n’roll pode ser muito perverso; b) a mulher quase que na maioria das vezes é mais conectada à terra, isto é, mais equilibrada que o homem; c) “o que a vida dá, a terra come”, isto é, Bolin foi um gênio da guitarra, que nasceu para aquilo e tirou da guitarra os mais celestes floreios, embora tendo morrido muito cedo. Sem público não há o espetáculo.

O mundo do rock’n’roll com sua indulgência obtida pela liberalização dos costumes sob o chavão sexo, drogas & rock’n’roll possibilita excessos que podem ser fatais. Bolin não passou ileso.

Sobre a vida de um guitarrista afetado e à flor da pele, Ted Nugent escreve muito claramente em Just What The Doctor Ordered.

                                                     I got my guitar when I was ten years old

                                                             Found a love in rock an’ roll

                                                    Now I’m on the verge of a nervous breakdown

                                                          I’m gonna give my body and soul

                                                                            It’s so crazy

                                                               But you know that I like it

                                                        I’ve found a cure for my body and soul

                                                         I’ve got me an overdose of rock and roll

                                                                  I jammed everyday

                                                               I jammed every night

                                                          I practiced till I knew all the licks

                                                 Now I’m on the verge of a nervous breakdown

                                                           I don’t know the meaning of quit

Ted Nugent

Ted Nugent é o guitarrista que entra no embate de melhor guitarrista de rock, e excede seus concorrentes no quesito de vigor e vitalidade. Tocando desde os nove anos formou algumas bandinhas durante a adolescência na cidade industrial de Detroit. Suas apresentações ao vivo eram seu maior trunfo como entertainer: arrastava hordas de jovens operários e rockeiros para dentro das lotadas casas de show na Motor City. Aos 19 anos já estava nas rádios chamando para a chincha guitarristas como Jimmy Page e Jeff Beck.

Tocava como um alucinado. Não tinha pudores. Falava sem parar no intervalo das músicas, atuava como vocalista líder durante todo o show e ainda tinha a capacidade de ser uma persona que inspira alegria e provoca risos. Fanfarrão-babaquento e também extremamente mal-fundamentado em opiniões políticas, as republicanas nacionalistas, embora um guitarrista exemplar – isto não pode ser negado.

Bom, por enquanto é isso. Gostaram das historiazinhas? Um abraço especial às rockeiras desse mundo que me leem.

(Best of 2011)Meus álbuns favoritos de 2011

Até dois anos atrás eu sempre fui um daqueles adolescentes saudosistas que babam ovo para o passado. Para mim, a década de 70 era a melhor,ao meu ver, naquela época não existia música comercial, a música daquela época era arte verdadeira, enquanto a cena musical atual, em que eu vivia, era sempre a pior, comercial e pobre.  Em especial, eu adorava odiar a música eletrônica: como putz putz pode ser música?; como uma música feita para dançar e ser curtida nas pistas pode ser levada a sério? Obviamente eu estava errado. Tomei contato com bandas atuais  tão boas quanto os clássicos, às vezes chegando até a os botar no chinelo. Já escrevi um ou dois posts sobre isso.

Então, para me manter mais atualizado na cena musical atual, perceber como os novos estilos surgem e evoluem, decidi,no começo desde ano, acompanhar vigorosamente os álbuns que seriam lançados. O resultado está aqui. Uma lista modesta dos meus favoritos do ano.

Formato: Posição –  Artista – Álbum   Gravadora / Gênero

#1. –  Andy Stott – We Stay Together   Modern Love / Dub Techno + Dubstep

Andy Stott - We Stay Together
Andy Stott – We Stay Together

                                                                                                                                                                                                      

               Antes de conhecer Andy Stott, tinha quase certeza de que o álbum do ano seria Hash-Bar Loops do DeepChord. A única concorrência ameaçadora era Biophilia da Björk (que nem está na lista, foi uma das decepções de 2011).

Andy Stott surpreendeu.  Nunca imaginaria que o dub techno poderia soar tão escuro, infernal e lamacento quanto as faixas de We Stay Together e Passed me By.

#1½. –  Andy Stott  – Passed me By   Modern Love / Dub Techno + Dubstep

Andy Stott - Passed me By
Andy Stott – Passed me By

                                                                                                                                                                                                                              


#2.  –  Deepchord – Hash-Bar Loops   Soma Records / Dub Techno

Deepchord- Hash-Bar Loops
Deepchord – Hash-Bar Loops

Produzido à base de Field recordings captados em diversas localidades de Amsterdã ( na janela do quarto, perto de lagos, no centro movimentado, em becos, ao lado de pessoas conversando em baladas) e hipnóticos loops estonteantemente repetitivos, Hash-Bar Loops funciona como uma viagem canábica pela vida noturna de da cidade.

#2½.  –  Deepchord – Hash-Bar Remnants Pt2  Soma Records / Dub Techno

DeepChord - Hash-Bar Remnants Pt2
DeepChord – Hash-Bar Remnants Pt2


# 2¾–  Deepchord – Hash-Bar Remnants Pt1  Soma Records / Dub Techno

DeepChord - Hash-Bar Remnants Pt1
DeepChord – Hash-Bar Remnants Pt1

# 3.  –  Grouper – A I A : Alien Observer Yellowelectric / Drone Folk + Dream Pop

Grouper - Alien-Observer
Grouper – Alien-Observer

“look into the night sky
looking towards the big lights
looking out to be free
suddenly something passes by my window
i feel it in the darkness
i get to feel it sometimes
following the street lamps
wondering how were ever meant to hide
going to take a spaceship
fly back to the stars
alien observer in a world that isnt mine”

#3½. –  Grouper – A I A : Dream Loss Yellowelectric / Drone Folk + Dream Pop

Grouper - Dream Loss
Grouper – Dream Loss

#4. – A Winged Victory For The Sullen  –  A Winged Victory For The Sullen  Kranky / Modern Classical + Drone

A Winged Victory For The Sullen
A Winged Victory For The Sullen

Colaboração entre Adam Wiltzie (Stars of The Lid) e Dustin O’Halloran. Delicado e melancólico, soa como Stars of The Lid com mais influências clássicas, demonstradas pelo piano e violino, que roubam a cena sobre os drones orquestrais.

#5. – Nicholas Szczepanik  –  Please Stop Loving Me  Streamline / Drone

Nicholas Szczepanik - Please Stop Loving Me
Nicholas Szczepanik – Please Stop Loving Me

Álbum de uma única faixa. 47 minutos de drone etéreo e melancólico.

#6. – Blanck Mass  –  Blanck Mass  Rock Action Records / Drone + Noise

Blanck Mass

Projeto paralelo de um dos hipster do Fuck Buttons. Sons relaxantes, multicoloridos e cheios de texturas e camadas.  As músicas evoluem calmamente: iniciam pacatas e simples até explodirem em dimensões gigantescas e preencherem os ouvidos com drones, loops de piano, vento, melodias distantes  e várias camadas de som.  Álbuns como esse me deixam imaginando como tamanha beleza consegue ser transmitida através de tanto barulho e aspereza.

#6.  – Anthony Paul Kerby and Tomas Wiss  –  Distant Shadows  Construct / Ambient

Anthony Paul Kerby and Tomas Weiss - Distant Shadows

Tá vendo essa imagem? Queria ir lá? Só ouvir o álbum e fechar os olhos.

#7. – cv313 –  Seconds to Forever  echospace [detroit] / Dub Techno

cv313 - Seconds to Forever
cv313 – Seconds to Forever

#8. – Tim Hecker  –  Ravedeath,1972  Kranky / Drone + Noise

Tim Hecker -  Ravedeath,1972
Tim Hecker – Ravedeath,1972

#10. – Kassem Mosse  –  Enoha EP  Nonplus Records / House

Kassem Mosse - Enoha EP
Kassem Mosse – Enoha EP

#11. – Colin Stetson – New History Warfare Vol. 2 Judges   Constellation / Avant-garde Jazz

Colin Stetson - New History Warfare Vol. 2- Judges
Colin Stetson – New History Warfare Vol. 2- Judges

Colin Stetson pegou um saxofone barítono, colocou 26 microfones no seu interior, convidou umas cantoras e pediu para elas ficarem falando sobre vilas antigas, tristeza e cavaleiros medievais enquanto ele improvisava. Simples e muito efetivo.

#12. – Oneohtrix Point Never  –  Replica  Software / Electronic

Oneohtrix Point Never  - Replica
Oneohtrix Point Never – Replica

#13. – SBTRKT –  SBTRKT  Young Turks / Future Garage

SBTRKT - SBTRKT

#14. – James Blake  –  James Blake  Universal,Polydor / Future Garage

James Blake

#15. – Pete Swanson  –  Man With Potential  Type,Type / Noise + Techno

Pete Swanson - Man With Potential
Pete Swanson – Man With Potential

Pete Swanson é um dos caras por trás duo de drone e harsh noise Yellow Swans. Em Man With Potential, arrancou toda melodia existente no Techno tradicional e enfiou ondas de barulho no lugar. O resultado é um techno destruído,deformado e insano.

#16. – Cokiyu – Your Thorn   flau / Twee Ambient

Cokiyu - Your Thorn
Cokiyu – Your Thorn

Álbum fofo. Vocais femininos que parecem ser cantados por uma criança acompanhados por melodias felizes e inocentes. Coisa para se ouvir deitado na grama, em uma tarde ensolarada, com alguém especial ao lado. ^^

#17. – Girls’ Generation  –  The Boys  S.M. Entertainment/ K-Pop

You Mad,bro?

As meninas do Girls’ Generation cresceram. Não é exagero chamar de “Women’s Generation” .  Com menos inocência e aegyo e mais glamour e sensualidade, elas agora buscam dominar o mundo ocidental. YOU MAD,BRO?

#18. –  Death Grips  –  Exmilitary  Third Worlds / Hip Hop + Rock

Death - Grips-Exmilitary

 

“I FUCK THE MUSIC, I MAKE IT CUM

I FUCK THE MUSIC WITH MY SERPENT TONGUE

#19. – Gang Gang Dance  –  Eye Contact  4AD / Synth Rock + Psychedelic Rock

Gang Gang Dance - Eye Contact
Gang Gang Dance – Eye Contact

“I can hear everything. It’s everything time”