Arquivo da tag: a perfect circle

Resenha íntima: Mer de Noms

O álbum Mer de Noms é de uma sensibilidade ímpar. Organismo vivo, comunica-se comigo numa linguagem emotiva e sensual. A poesia íntima de MAYNARD J. Keenan fecha feriadas antigas com a delicadeza de uma energia feminina.

Run, desire, run, sexual being
Run him like a blade to and through the heart
No conscience, one motive
To cater to the hollow
Screaming

Uma safira sonora com sabor final de anos 90, tempero de um grunge paliativo mas também de um metal alternativo delicado. Os refrões e riffs fluem e são agradavelmente combinados, numa montãna-rusa sonora esparsa e viajante. Maynard, simplesmente, canta. Voz doce e ofendida, revoltada mas frágil. Com andamento vívido e melódico, a harmonia seduz a confissões e amarguras. Viciante.

9988ecee5c604e249e11f86fc188ac6e

Drunk on ego
Truly thought I could make it right
If I kissed you one more time to
Help you face the nightmare
But you’re far too poisoned for me
Such a fool to think that I can wake you from your slumber
That I could actually heal you..

PAZ Lechantin está jovial e branda, verdejante de perfumes e (…). A intro de Orestes é realmente de se canonizar no compêndio daquelas basslines misteriosas e melancólicas.

A produção do álbum em estúdio é de se arrepiar, pois as tracks soam tão limpas e cristalinas que é impossível não tirar o chapéu para o trabalho de mixagem de Billy Howerdel. Efeitos de overdub e arranjos orquestrais de muito bom gosto, retirados da cartola de um mago de estúdio. Mas ao vivo a banda também esbanja qualidade, com performances intensas.

Maynard maravilhoso usando longos cabelos de peruca e com unhas pintadas. Uma inspiração.

Difficult not to feel a little bit
disappointed, and passed over
When I’ve looked right through,
see you naked but oblivious.

And you don’t see me…  

Here I am expecting just a little bit too much from the wounded
But I see, see through it all, see through, see you.

Um álbum que fala a mim como um cúmplice falaria. O Leonardo, agora menos ingênuo, e com o coração já cicatrizado. Um Leonardo sensual, emotivo e sentimental.

Resenha: Por que Lateralus é um dos melhores álbuns de metal da década de 2000

Primeiro, deixando o álbum falar por ele mesmo.

É um privilégio histórico e tecnológico o ouvinte poder ter esse álbum a um clique e absolutamente de graça. A capa do álbum foi produzida por ninguém menos que o artista plástico e guru lisérgico Alex Grey.tool-alex-grey-98494-3456x2304Tool é uma banda dos Estados Unidos formada por Maynard James Keenan, Danny Carey, Adam Jones e Justin Chancellor. Durante a década de 90 e 00 o grupo se firmou no monte do Olimpo do metal impondo sua sonoridade pesada e atmosférica. Lateralus é na minha opinião o melhor álbum da banda, e uma das obras primas da década de 2000. top-tool-band-980x753Seria um erro postar de início alguma faixa isolada. Parece que nenhuma está completa sem a outra. Existe uma estranha continuidade misteriosa que envolve todas as faixas.E essa continuidade vai além de o final de uma composição ser o prelúdio ideal para a próxima, estou falando de algum tema ou motivo que permanecem constantes durante todo o álbum. Talvez seja pela influência da bateria de Danny Carey, inspirado por percussão cíclica e padrões geométricos.

194px-Interwoven_unicursal_hexagram.svg
Bateria inspirada no Hexagagrama de Unicurso.

Lateralus é um album capaz de fluir do metal mais pesado àquilo que há de mais leve. E o mais alucinante é a habilidade que a banda tem de construir a atmosfera, elevando o som, pouco a pouco, e cada vez mais, a níveis estratosféricos e colossais. Tool é também o caminho entre o peso de bigorna na cabeça e a pena branca ao vento. Isso também pelo vocal do ex-psicótico, alucinado e emotivo, e agora cowboy, Maynard Keenan, conhecido também pela banda de new metal grunge que tinha com a atual baixista do Pixies, Paz Lechantin.

O álbum foi premiado com o Grammy para a Melhor Performance de Metal. Outros premiados já foram Ozzy Osbourne, Korn, Nine Inch Nails e Metallica.

É desse tipo de metal que tô falando!

Esse metal que parece ser inspirado por saltos de tirolesa em plena cidade de céu nublado. Do topo de um prédio até a avenida movimentada, onde de um pulo você cai no banco do automóvel que rasga o asfalto. Cabelos ao vento. E combinado com a suavidade mais tranquila, hipnótica, em mantra. Pra mim tem a ver com a guitarra de Adam Jones, que vai do riff mais arrepiante, arrancando aquela montanha russa na nuca, até drones áspero e massageantes. O guitarrista também é artista visual para os shows e alguns clipes da banda.

(Esse vídeo não é feito pelos caras da banda. A versão do fã ficou bem melhor – foda-se)

Meditativo, mas também aterrorizante. Apesar de Maynard sussurrar em Disposition. ” – We Are All Equal” , o desfecho do álbum com a tribal Triad diz que alguma apreensão está próxima. Então vem a última faixa, Faap de Oaid, daquelas atmosferas aterrorizadoras a que só o krautrock mais kósmico pode se igualar. Mas Faap de Oaid não é sobre correntes sendo batidas em latas ou mulheres gemendo no microfone. É sobre o depoimento de um funcionário da área 51 sobre ET’s a uma transmissora de rádio.

Mas se a última faixa é uma incitação à loucura e à insanidade, o ciclo retorna ao princípio, em que o berro de The Grudge, um dos mais longos e rasgantes do metal, incita que devemos mesmo é “let go!”. Álbum em espiral ou mandala. Pérola high tech de virada de século. Ano de 2001.

tumblr_n2ae4wkQvW1qebxmho1_1280Produção feita por Dave Botrill, que também produziu para o Dream Theater. Em poucas palavras: Lateralus é um dos melhores álbuns da década de 2000 porque pegou o metal progressivo mais sofisticado, o sludge mais sujo, e também se refrescou no new metal e na música oriental. Os músicos, se não todos de virtuose, têm inegavelmente habilidade, controle e disposição de técnicas e linguagens versáteis, além de estarem profundamente envolvidos no processo de produção do conteúdo audiovisual. tumblr_lxmz6i12b01qmidx6o1_1280 tumblr_mlx27wf7BJ1s5e7aco1_1280

Na minha cabeça vêm aquelas imagens de Need For Speed 3:Hot Porsuit kkkkkkkkkkkk

Alguma coisa que brota na minha mente ocasionalmente durante a audição. Sensação misteriosa que me inspira. Mas isso já tem a ver com a quinta dimensão, em que tudo é experiência e nada é comunicável. E essas experiências cada um tem sua própria. Qual a sua? O que acha desse som pesado e ao mesmo tempo polido? Existe sonoridade parecida?