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A melhor Resenha do livro “Skagboys” de Irvine Welsh

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Este livro do Irvine Welsh é muito divertido, um entretenimento de primeira categoria, para o qual vale a pena se debruçar várias horas de uma leitura casual. Narra a história pregressa de Spud, Mark Renton, Begbie e Sick Boy, antes do que já conhecemos através do primeiro livro da série Trainspotting.

Quando na década de 80 numa Escócia filha do tatcherismo e terreno de greves operárias, adolescentes nascidos nos blocos habitacionais, sem emprego nem nada que se preze para fazer, adotavam excessivamente o estilo de vida de “que se foda” do rock’n’roll e assumem uma postura de auto-destruição, como maneira egotística de protesto e fórmula escapista para uma falta de ambição.

Irvine Welsh, junkie como foi, e habilidoso romancista versado na cultura pop, expõe com humor, sem tabu e nem moralismo, os extremos de toda uma geração, através das vozes em primeira pessoa de suas irresistíveis personagens.

De uma preliminar contextualização sócio-política verossímil e fiável, o autor vai trabalhando cada aspecto da vida das personagens, para mostrar como o caminho da dependência na heroína, e drogas pesadas em geral, é trilhado em linhas individuais que refletem a personalidade do usuário, seus dramas existenciais, o contexto familiar e político que o rodeia e, principalmente, uma tendência ao vício que é proporcional ao niilismo e falta de vontade da pessoa.

Como deve ser, o assunto da heroína é tratado primeiro como problema de saúde pública, depois como um estilo de vida glamouroso porque decadente – já que “todo junkie é como um poente”- divulgado por ídolos da cultura pop num repertório infindável de álbuns e filmes de cultura pop.

A droga não aparece daquela maneira maniqueísta e moralista tão comum aos noticiários e ao senso comum, como se a substância fosse capaz de ter vontade própria e deliberadamente atrair  a vítima através de suposto magnetismo químico pelo caminho da perdição.10999749905_d004bc4610_z

Mas também não é só isso, já que a heroína é uma curtição danada, ou seja, se não fosse um barato tão bom e indescritível, não teria tanta gente usando e tanto filme e tantos álbuns de música sobre a rainha das drogas. É essa atmosfera que Irvine Welsh consegue criar de forma tão autêntica: realmente se consegue sentir como deve ser andar pelas ruas chuvosas dos bairros antigos da Escócia, na fissura, atrás de um punhado da marronzinha. O primeiro contato com a heroína em cachimbo num baile northern soul. As falcatruas, invasão de propriedade só pela adrenalina, as sangrentas brigas de gangue com pano de fundo nos clubes locais de futebol. As luzes de Londres, a legalidade de Amsterdã. Ouvir uns LPs debatendo música com os parceiros e as gatinhas num mocó. Ou mesmo os efeitos nocivos da droga, a abstinência que esmigalha os ossos, o estômago enrijecido e a falta de apetite, a perda de peso, o rosto que fica chupado e seco, o dentes que apodrecem. Tudo isso Irvine Welsh tem.

Um livro com o qual certamente podem se identificar o junkie e sua família, bem como o próprio traficante, o artista oportunista mas também o psicólogo ou assistente social da clínica de reabilitação.

Sobre a cena musical

Iggy Pop, Stones, Velvet Underground, etc podem até ser muito bons, eu reconheço, mas, como brasileiro, sinto que nunca – nunca vou conseguir curtir a essência da vibe desses sons se não for na ocasião de overdose no banheiro sujo de um pub em UK.

Que bom que nunca consegui um intercâmbio na faculdade!

Não, pera! Com essas motivações, acho que quem não me quis foi o intercâmbio.

Resenha: Álbum avulso do dia: ‘EYEHATEGOD’ – ‘TAKE AS NEEDED FOR PAIN’

O que se sabe desse álbum é que Mike Williams durante a gravação havia sido largado pela namorada, e já que estava sem lugar para ficar passou a morar num quarto abandonado acima de um strip club. Mike era conhecido por sofrer de asma, e viver últimas consequências da vida: além de ter perdido pai e mãe ainda quando criança, saiu de casa aos 15 de idade, e por anos viveu como usuário habitual de heroína. O álbum foi lançado em Dezembro de 1993 em New Orleans. EHGTANFPFront1As letras ficam praticamente incompreensíveis graças aos berros enfurecidos e rancorosos de Mike Williams. Os riffs de guitarra de Jimmy Bower são absolutamente pesados, incessantes, e poluídos. Muito feedback, distorção e ruído no decorrer de todo o álbum. A bateria soa bem abafada. Se esse álbum tivesse cheiro, ele ia feder até dar náusea.

O primeiro pico acontece com ‘Blank’, de 7min10, a faixa mais longa do CD, em que os grooves gordurosos que vão dominar os 50 minutos do play são introduzidos. A imundície sugerida pela setlist é rastejantemente preenchida. Em alguns trechos a banda exibe influências de hardcore punk e o ritmo dessa marcha putrefata é abruptamente acelerado.

Aos 19 minutos ‘Disturbance’ literalmente perturba ao interromper o álbum com um longo drone de 7 minutos, no qual uma voz que faz lembrar o áudio de alguma aula de medicina cirúrgica fala sobre “pacientes”, “decaptação”, “rins” e “tubos”. A quantidade de reverb nas guitarras e no baixo é tão cheia de camadas e densa que provoca uma espécie de sucção em areia movediça sonora.

1. “Blank” 7:10
2. “Sisterfucker (Part I)” 2:13
3. “Shoplift” 3:17
4. “White Nigger” 3:56
5. “30$ Bag” 2:51
6. “Disturbance” 7:01
7. “Take as Needed for Pain” 6:09
8. “Sisterfucker (Part II)” 2:39
9. “Crimes Against Skin” 6:49
10. “Kill Your Boss” 4:16
11. “Who Gave Her the Roses” 2:00
12. “Laugh It Off” 1:33
Total:
49:54

Mike na faixa homônima ao álbum segue com letras que talvez demonstrem o ódio transbordante que nutre por si mesmo:

Breast Fed From A Dog
Since The Day I Was Born
Severe Allergic Infektion
Lousy Lust Pimp

Narcotic Induced Hypo-Thermia

As faixas mais curtas do álbum – ‘Shoplift’, ‘White Nigger’, ’30$ Bag’, ‘Sisterfucker I e II – são praticamente indistinguíveis. O álbum ao todo soa como uma massa lodosa e homogênea. ‘Crimes Against Skin’ é no entanto a faixa com os riffs mais distinguíveis, na minha opinião. A impressão que fica é a de que o álbum flui muito bem.

O breakdown de ‘Who Gave Ger the Roses’ cessa abruptamente o álbum, que tem seu fim na bizarra ‘Laugh it Off’, uma colagem de som curta e perturbante. Ouvi o álbum pela primeira vez hoje, e agora, de madrugada, já o devo estar reproduzindo pela 7ª ou 8ª vez.

Para quem gosta de: Cromagnon, Black Sabbath, Boris e Sleep

É isso aí. O som é podreira mas a energia que quero passar é positiva: compartilhando o que eu gosto com pessoas que também vão gostar. Quem aí curte um sludge metal? Até a próxima!